sábado, 21 de maio de 2011

O gaúcho de José de Alencar e a nação como projeto

Capa de uma das edições do livro O gaúcho, de José de Alencar




Acaba de ser publicado, na revista Nau Literária, o artigo O gaúcho de José de Alencar e a nação como projeto: "romantismo político" à brasileira? Nele, procuro ler historicamente a obra O gaúcho (1870), a fim de identificar, através da composição formal, índices políticos legados à tradição literária regionalista do Rio Grande do Sul, como a crítica ao progresso, a nostalgia do tempo perdido, a construção do "bom selvagem" pampiano e a projeção romântica de futuro baseada no passado mítico. Segue o link:

http://seer.ufrgs.br/NauLiteraria/article/view/16084

domingo, 28 de novembro de 2010

A figuração do desengano: Triste Fim de Policarpo Quaresma


Notas de leitura


Para tentar tornar a presença neste espaço mais assídua (por minha parte, claro, já que meus dois leitores andam ocupados com assuntos mais produtivos e, com certeza, divertidos), resolvi publicar textos mais curtos, mais ensaístícos (se isso for possível), quer dizer, menos articulados, com observações rápidas sobre minhas leituras atuais. Começo com Lima Barreto.



A figuração do desengano: Triste Fim de Policarpo Quaresma

Lima Barreto (1881-1922)


Em Triste fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1915, Lima Barreto nos apresenta uma interessante jornada de herói, em que o triunfo do meio sobre os abnegados ideais nacionalistas do protagonista levam-no, ao mesmo tempo, à ruína e à redenção. Isso se tomarmos o ponto de vista do narrador como parâmetro de consciência desejável. Há, desde o início da trama, um descompasso entre a idealização do mundo operada pelas lentes patrióticas do Major Quaresma e as avaliações negativas do narrador sobre a sociedade brasileira, na cidade e no campo. Não obstante, o desenrolar do enredo conduz ambos os elementos a uma aproximação final: ao passo que o primeiro se digladia em novas (e não menos malsucedidas) frentes de batalha, conquista certa comiseração do segundo, cujas concessões, aliás, chegam a soar como lamento no desfecho da narrativa.

As três partes da obra recuperam uma seqüência de empreitadas algo quixotescas de Quaresma, as quais se não desencadeiam uma tomada efetiva de consciência, com a crítica de sua experiência, ao menos exigem a reavaliação das estratégias de ação. Com isso, o olhar do narrador oscila entre o ajuizamento manifesto, a descrição aparentemente distanciada, mas irônica e, como dito, certa empatia final. Ao longo do trajeto, o protagonista aparece como desajustado social – porque diferente de uma sociedade de fato desajustada –, variando entre o romantismo inocente, a utopia canhestra e a alienação social.
No primeiro momento, além da caracterização dos personagens e a localização espaço-temporal do entrecho (o Rio de Janeiro nos anos iniciais da I República), conhecemos a obsessão do protagonista pelas coisas locais, que se desdobra no inventário e celebração do que se supõe nacional, como a modinha e o violão, o folclore negro e, finalmente, após a asserção de que o “popular” no Brasil é fruto de tradições transplantadas, a cultura indígena. Os episódios da proposição de reviver o tupi e o embaraço causado, na repartição em que trabalhava, devido ao documento oficial redigido, por engano, nessa língua são o ápice da monomania do protagonista. A conseqüência na trama é reveladora da percepção do narrador sobre Quaresma, ao que parece, compartilhada pelos demais personagens: sua internação no hospício aponta para algo entre a loucura (de limites socialmente imprecisos no momento, vale lembrar) e o devaneio ingênuo, por isso mesmo de promissora cura.

A seguir, liberto do “cemitério de vivos”, o Major direciona suas energias para o cultivo da terra, numa localidade relativamente próxima da capital, querendo com isso coadunar sua existência à “vocação agrária” do país. Ao ser vencido pelo meio, geográfica e socialmente improdutivo, suas últimas esperanças de servir à pátria se depositam na defesa da república, durante a Revolta da Armada, que opusera a Marinha, politicamente conservadora, ao governo “jacobino” do Marechal Floriano Peixoto. Esse é o mote da última parte do livro. Mas um Quaresma demasiado humano, sensível aos anseios de comandados e, na sequência, às dores dos prisioneiros de guerra, entra em conflito com o autoritarismo do regime. Em sua última cartada, também bastante ingênua, condena o assassínio indiscriminado dos opositores já vencidos, o que lhe rende, ao que tudo indica, fim semelhante.

A paulatina confluência entre o ponto de vista do narrador e a trajetória do protagonista, marcada pelo niilismo assumido por Quaresma nas últimas páginas do romance, revela, assim, um processo narrativo complexo e, de certa forma, vacilante: a tônica realista, cuja descrição objetiva remete, como apontado por Alfredo Bosi em sua História Concisa da Literatura Brasileira, a muito de crônica (ambientes e cenas cotidianas), cede, em alguns momentos, espaço à alegoria. Em última instância, os absurdos de Quaresma denotam os paradoxos da sociedade brasileira; os conflitos narrativos exacerbam aquelas questões que o narrador ou – por que não? – o autor acreditava problemáticas, como as tensões entre a ideologia positivista, e seu cientificismo autoritário, e o “atraso” da sociedade ainda em grande medida paternalista. Mas, como também quer Bosi, o grande trunfo do romance é justamente a exposição desse “desencontro” entre o “ideal” e o “real”, o que deixa indeléveis marcas na forma, ao mesmo tempo incômodas e saborosas.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O gaúcho como o outro

Passada a edição de publicação, segue na íntegra o texto "O gaúcho como o outro". Mas fica o convite para conhecer a revista Norte e ler o novo número: http://www.revistanorte.com.br/.





O gaúcho como o outro

A recente avaliação, durante a Copa do Mundo de Futebol, do ex-jogador, hoje médico e articulista esportivo, Sócrates sobre o conservadorismo supostamente gaúcho do ex-técnico da seleção brasileira Dunga, declarada em entrevista ao jornal britânico The Guardian, gerou intensos debates na mídia impressa local e na internet. Os protestos ultrapassaram a torcida da seleção, demonstrando desconforto entre setores diversos da sociedade sul-rio-grandense. Escritores, músicos e mesmo historiadores saíram em defesa do torrão natal, apelando para seu histórico de rebeldia ou justificando a diferença em relação ao todo nacional pela sua complexa composição cultural, fruto da ocupação tardia e etnicamente diversa. Alguns “nativos” chegaram mesmo a olhar o episódio com certa complacência, concordando (e lamentando) o atraso do contexto regional. Tal variedade de opiniões, por si só, já colocaria em cheque a unidade gaúcha, aclamada por habitantes, vale dizer, dos dois lados do Mampituba. Contudo, foi pouco comentado o deslize lógico da fala de Sócrates: os gaúchos são os brasileiros mais reacionários, o que daria o toque pessoal de Dunga à seleção, deixando-a, assim, sem cara de brasileira. A aparente contradição é bastante significativa, pois está solidamente assentada naquele imaginário nacional que aponta o gaúcho como seu “outro” interno.

Ao longo do século XIX, mesmo período em que começamos todos, do norte ao extremo sul do antigo império português na América, a nos imaginar como brasileiros, o gaúcho foi, no entanto, o outro do sul-rio-grandense. Nossa sociedade fronteiriça, construída entre o latifúndio e a guerra, duas formas de marcar a posição e os interesses lusitanos na região, negou os possíveis vínculos culturais com o inimigo castelhano. O gaucho, homem “de a cavalo” visto como bandido ou vagabundo que errava sem lei nem rei pela imensidão da pampa, só poderia ser, evidentemente, o elemento platino. Como mostrado pelo crítico Augusto Meyer (1957), a positivação da palavra “gaúcho” só se dera com a organização da estância e com sua identificação ao trabalhador rural, o peão. Mais recentemente, a historiadora Carla Renata Gomes (2009) revelou o importante papel da literatura de viagem e da ficção oitocentista na transformação do termo no gentílico do Rio Grande do Sul. Enquanto os escritores locais cantavam o campesino rio-grandense, “monarca das coxilhas” ou “centauro da pampa”, sem referência ao vocábulo, o olhar “desde fora” e o imaginário da corte, marcado pela escassa bibliografia sobre a região (proveniente principalmente da Argentina e do Uruguai), designavam, de forma suspeita, todos os habitantes da antiga província de São Pedro do Rio Grande do Sul pelo epíteto de gaúcho. Daí o título do romance clássico de José de Alencar, publicado em 1870, e que pressionou a produção local, imediatamente posterior àquela dos jovens republicanos da Sociedade Partenon Literário, a assumir tal alcunha para o sujeito folk que se pretendia narrar. Daí também as incoerências na forma e no enredo daquela obra do escritor cearense, centrada no elogio do gaúcho mítico, contudo marcada, em alguns momentos, pela crítica da barbárie pampiana.

Taxado pela revolta mais duradoura do período regencial, a Guerra dos Farrapos – que chegou, vejam bem, a declarar a independência política do restante do país –, pela proximidade com o inimigo platino, pela excêntrica imagem de civilização rural e militar, predominantemente masculina, como a lendária sociedade magiar, além de sua distância geográfica (e consequentemente simbólica) com o centro, o sul-rio-grandense continuou sendo, no início do século XX, o outro interno do Brasil, paradoxalmente identificado com o seu próprio outro/inimigo histórico, o castelhano. A capital Rio de Janeiro possuía, na Primeira República, considerável “colônia” de intelectuais e políticos oriundos do Rio Grande, como o reconhecido escritor regionalista Alcides Maya, membro da Academia Brasileira de Letras, que construía, em seus textos, um gaúcho mítico positivado segundo o modelo de Alencar. Como apontado pelo folclorista e historiador diletante Barbosa Lessa (1985), naquele contexto os rio-grandenses eram quase que naturalmente chamados gaúchos. Enquanto esses viam com bons olhos a “novidade” e aceitavam o apelido, tal situação causava resistência entre a elite urbana do estado, que negava o suposto passado gaudério, como nas queixas do escritor Arthur Toscano nas páginas do Almanak do Rio grande do Sul, de 1912. Tal fato tem relação, como vimos, com o sentido pejorativo original da palavra, mas também revela a necessidade então sentida de afirmar o rio-grandense como brasileiro.

Entretanto, a estratégia já não funcionaria sem recorrer ao estigma. Os eruditos do Instituto Histórico e Geográfico local (IHGRS), fundado em 1920, produziram, nesse sentido, uma memória histórica conciliadora: pese a divisão entre uma matriz historiográfica lusitana e outra platina, nos termos da historiadora Ieda Gutfreind (1992), com a negação ou a relativa aceitação de fluxos econômicos e sociais entre o Rio Grande e os países do Prata, o gaúcho social foi irremediavelmente incorporado ao patrimônio do estado. A solução do impasse estava novamente na oposição com o gaucho malo platino, distante do “nosso” gaúcho rio-grandense, construído como ordeiro, trabalhador e, surpreendentemente, social e racialmente democrático, dada a suposta indiferenciação entre o patrão e o peão na lida campeira e a ainda mais fabulosa boa vida do escravo na estância. Tal articulação permitiu, então, a constatação da brasilidade do gaúcho, esteio do país no sul do continente. A Revolução de 1930, que levou ao poder Getúlio Vargas e as elites periféricas descontentes com o pacto oligárquico tradicional, era justificada no estado (até pouco dividido entre a dissidente Aliança Libertadora de Assis Brasil e o PRR no poder de Borges de Medeiros) como o empenho de “rio-grandensizar” o Brasil, o que insinuava, ao mesmo tempo, a superioridade política do elemento sulino e sua vocação histórica para a defesa do país. A cena folclórica dos “gaúchos” amarrando seus cavalos no obelisco da Avenida Central, na capital federal, mais do que pilhéria, simbolicamente atestava a ligação entre a afastada região e o epicentro da sociedade brasileira. Ainda assim, as singularidades dos rio-grandenses/gaúchos não afastavam o olhar desconfiado do centro, fato que se desdobrava, durante as comemorações do centenário da Revolução Farroupilha, na necessidade de redesenhá-la como uma revolta patriota, republicana e, ao invés de separatista, redentora, disposta a dar o sangue de seus filhos para sanar os males do império. Mais do que isso, a paz de Ponche Verde era vista como a adesão voluntária e consciente do estado à nação, por isso mesmo, mais sincera que a das demais unidades.

No final da década seguinte, os construtores do movimento tradicionalista gaúcho ainda sentiam o fardo das suspeitas: declarar o mito do gaúcho pampiano como base da identidade regional, inventando na cidade um complexo aparato ritual fundado no modelo idealizado do galpão da estância, também passava pela afirmação da brasilidade do “centauro”. Não bastasse o nascimento da primeira Ronda Crioula, em 1947, dar-se como continuação das comemorações da independência do Brasil, três anos depois o manifesto publicado no primeiro boletim informativo do “35” CTG evitava acusações de “ânimos separatistas” e declarava o patriotismo de seus integrantes. De lá para cá, o tradicionalismo gaúcho cresceu vertiginosamente, gerando tanto adesão quanto reação. Mas o papel do movimento na valorização do termo e sua disseminação como gentílico não pode ser negligenciada. Hoje, mesmo aqueles que negam (e combatem) o “modelo da bombacha” não deixam de se sentirem “gaúchos”, pelo simples fato de aqui nascerem ou terem crescido.

Se o estigma, como afirmou o sociólogo Erving Goffman (1988), é a afirmação de atributos considerados depreciativos, dentro de uma linguagem de relações, de uma “identidade social real” até a composição da “identidade social virtual”, o olhar estigmatizante do centro sobre a periferia, no caso do Rio Grande do Sul, operou inicialmente com aqueles elementos expurgados pelo próprio rio-grandense para o outro lado da fronteira nacional. A apropriação e a ressignificação de tais atributos levaram-nos, como mostrou o antropólogo Ruben Oliven (1992), a um constante paradoxo cultural: a assunção das especificidades da parte dentro do todo. De um lado, tal estratégia possibilitou a legitimação política do protagonismo gaúcho no cenário nacional e, inclusive, como apontado pela cientista política e historiadora Céli Pinto (1990), a exigência de atenção privilegiada da federação à unidade meridional, em supostos momentos de crise, dado que, segundo esse discurso, seu compromisso histórico com o país não obteve o justo retorno. De outro, ela acaba por reforçar (também internamente) o estigma, gerando anseios mais exacerbados de diferenciação, ufanismo e, para alguns, a justificativa da pretensa superioridade. A recepção desse emaranhado discursivo produzido no Rio Grande atualiza, de certa forma, o histórico imaginário de suspeitas do centro, o que se materializa, hoje, em falas como a de Sócrates: os gaúchos são brasileiros, não há dúvidas; mas de um tipo tão peculiar que chega a não ser “bem brasileiro”.

Assim, a escolha dos atributos que compõem o estereótipo também é atualizada: a suposta misoginia, o machismo, o apelo ao rural do gaúcho chegam ao reacionarismo; não importa se a mesma realidade tenha produzido historicamente elementos que poderiam ser facilmente utilizados para reverter as desconfianças, como o almejado cosmopolitismo da capital Porto Alegre, a concentração urbana da população e o tão aclamado, pelos defensores da “honra ferida”, histórico de rebeldia. No reverso da moeda, a exaltação de atributos também arbitrariamente selecionados nos leva à construção de mitos como a superioridade, a grande politização e mesmo aquele do “característico” esquerdismo do estado.

Se todos os elementos, em ambos os lados, se encontram aqui, também não seriam difíceis de achar em outros cantos do país. Os extremos acabam por apagar, discursivamente, a complexidade. As grandes abstrações “gaúcho” e “brasileiro”, ao operar via estereótipos, estigmatizados ou não, esquecem que o Rio Grande (ou São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco etc), como toda sociedade, é heterogêneo, marcado pela diferença, por tensões e conflitos, tanto ou mais do que pela solidariedade identitária.

Referências:

BARBOSA LESSA, Luiz Carlos. Nativismo: um fenômeno social gaúcho. Porto Alegre: L&PM, 1985, 120 p.

GOFFMAN, Irving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4ª edição. Rio de Janeiro: LTC, 1988, 158 p.

GOMES, Carla Renata de Souza. De rio-grandense a gaúcho: o triunfo do avesso - um processo de representação regional na literatura do século XIX (1847-1877). Porto Alegre: Editoras Associadas: 2009, 352 p.

GUTFREIND, Ieda. A historiografia Rio-Grandense. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1992, 217 p.

MEYER, Augusto. Gaúcho: história de uma palavra. Porto Alegre, Instituto Estadual do Livro, 1957, 71 p.

OLIVEN, Ruben. George. A parte e o todo: A Diversidade Cultural no Brasil-Nação. Petrópolis: Vozes, 1992, 143 p.

PINTO, Celi Regina Jardim. O Discurso da Crise - uma presença constante na história gaúcha. In: Donaldo Shuller. (org.). Mito ontem e hoje. Porto Alegre: UFRGS, 1990, p. 12-28

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Gauchismo e política

Artigo de opinião publicado no jornal Zero Hora, de 15 de setembro, sobre a cofluência entre a Semana Farroupilha e a disputa eleitoral.


Gauchismo e política


Pensar as relações do gauchismo com a política no Rio Grande do Sul nos leva à sua gênese como discurso literário no século 19. A “era das nações”, em que a soberania deslocou-se do reino dinástico, de legitimação divina, para o “povo”, precisou, evidentemente, circunscrever as características e os limites do nacional e, por conseqüência, do popular. O gaúcho, herdeiro do “monarca das coxilhas” e do “centauro da pampa”, se tornou objeto de investimento de nossos intelectuais – locais e cortesãos, vale dizer –, comprometidos com a criação de imagens de um Brasil diverso, mas unificado. Nacionalista, o modelo do centauro era também romântico. Como tal, foi marcado pela crítica do progresso capitalista, responsável pela desarticulação da organização rural tradicional. Essa dupla formatação foi recuperada e atualizada pela ficção, pelo jornalismo, pela historiografia e pelo movimento tradicionalista, no século 20, com intenções, direta ou indiretamente, também políticas: a asserção das peculiaridades – e, para alguns, da superioridade – do regional.

Ao mesmo tempo em que o mito literário se difundiu em nossa sociedade, ganhando novas dimensões, a fórmula da bombacha, do lenço atado ao pescoço, do cavalo e, muito recentemente, da prenda na “garupa”, se tornou suficientemente cristalizada a ponto de definir a solidariedade identitária sul-rio-grandense. Por mais que ela esteja longe de ser consensual, seu apelo no imaginário local é inegável. Basta lembrarmos sua grande ressonância mesmo em antigas colônias de imigração alemã e italiana, interpretada por nossos antropólogos justamente como uma tentativa de afirmação social pela incorporação do discurso dominante no contexto luso-brasileiro. Não menos difícil é encontrar cidadãos sem o menor vínculo com o campo, sequer aqueles laços simbólicos proporcionados pela adesão ao tradicionalismo, que reconhecem neste modelo ideais tidos como próprios de todo habitante do estado: cito, para ficarmos no domínio do óbvio, o gosto pela distância e pelo torrão natal, traduzidos na defesa da liberdade e na contestação do centralismo opressor.
Com contornos políticos dessa maneira desenhados e com o grande alcance do gauchismo em todo o estado, fica fácil entender a atração ainda hoje exercida por ele sobre a classe política local. Nas vésperas de eleições regionais e nacionais, vemos candidatos dos mais variados matizes fazendo, em maior ou menor medida, reverência direta ao mito ou aos signos identificados com o gaúcho/nativo. Nos últimos dias, com a suspensão ritual de nossa sociedade para a celebração do gaúcho mítico, durante a Semana Farroupilha – atividade de Estado, vale ressaltar –, seu apelo se intensifica manifestamente. Pensar sua história e sua configuração é importante para lembrarmos que, como outrora, por trás dos lenços brancos e vermelhos existem concepções e ideias que fundamentam ou legitimam projetos políticos inclusive divergentes.

Se, de um lado, a plasticidade que permite sua utilização tanto pela direita quanto pela esquerda é sintoma da pluralização recente de seus sentidos, fruto da entrada dos antigos críticos da ideologia gaúcha na disputa pela definição do mito, o que talvez seja benéfico para o debate democrático, de outro, o eleitor responsável não pode perder de vista a complexidade do jogo político em função da afetividade declarada pelo modelo da bombacha. Se hoje, como ontem, o centauro responde a interesses específicos, ainda que mais variados, sua força continua centrada em seu potencial de homogeneização e, portanto, de simplificação. A escolha consciente, dessa forma, não pode ser pautada por um simples brado de amor ao Rio Grande, mas pela avaliação sistemática da trajetória, das ações e dos projetos, ou seja, dos compromissos assumidos pelos partidos e candidatos. Perguntar “por que este discurso?” mostra que outra indagação já bastante recomendada – “a quem ele serve?” – continua pertinente.
ZALLA, J. Gauchismo e política. Zero Hora. Porto Alegre, 15/09/2010, p. 23.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O gaúcho como o outro

Artigo publicado no n. 15 da revista Norte, de Porto Alegre. Segue abaixo pequeno trecho.



O gaúcho como o outro

A recente avaliação, durante a Copa do Mundo de Futebol, do ex-jogador, hoje médico e articulista esportivo, Sócrates sobre o conservadorismo supostamente gaúcho do ex-técnico da seleção brasileira Dunga, declarada em entrevista ao jornal britânico The Guardian, gerou intensos debates na mídia impressa local e na internet. Os protestos ultrapassaram a torcida da seleção, demonstrando desconforto entre setores diversos da sociedade sul-rio-grandense. Escritores, músicos e mesmo historiadores saíram em defesa do torrão natal, apelando para seu histórico de rebeldia ou justificando a diferença em relação ao todo nacional pela sua complexa composição cultural, fruto da ocupação tardia e etnicamente diversa. Alguns “nativos” chegaram mesmo a olhar o episódio com certa complacência, concordando (e lamentando) o atraso do contexto regional. Tal variedade de opiniões, por si só, já colocaria em cheque a unidade gaúcha, aclamada por habitantes, vale dizer, dos dois lados do Mampituba. Contudo, foi pouco comentado o deslize lógico da fala de Sócrates: os gaúchos são os brasileiros mais reacionários, o que daria o toque pessoal de Dunga à seleção, deixando-a, assim, sem cara de brasileira. A aparente contradição é bastante significativa, pois está solidamente assentada naquele imaginário nacional que aponta o gaúcho como seu “outro” interno.



Texto completo em: www.revistanorte.com.br

ZALLA, J. O gaúcho como o outro. Norte. Porto Alegre, agosto/setembro de 2010, p. 20-22.

domingo, 22 de agosto de 2010

Por que (ainda) ler Homero

Por que (ainda) ler Homero



Homero e seu guia, de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905)

Cerca de três mil anos nos separam do mundo de Homero. Se o aedo canta em seus versos os feitos de dinastias lendárias da civilização minóico-micênica (1600-1100 a.C), a sociedade desenhada na Ilíada e na Odisseia, segundo Pierre Vidal-Naquet, lembra um período pouco mais recente, uma Grécia arcaica tribal fundada sobre os escombros dos palácios de Argos. Fixados no século VIII a.C. pelo(s) narrador(es) que convencionamos chamar de Homero, os dois poemas revelam uma sociedade ainda muito distante da nossa. No entanto, desde então a história nos liga continuamente ao cerco de Ílion e ao relato do retorno de Ulisses à sua terra natal.

O que por séculos a fio chamou tanto a atenção dos letrados de diferentes origens não foi a vida centrada no oikos, a casa do chefe político e militar comunitário, que a historiografia tradicional ligou anacronicamente ao feudo europeu medieval, nem mesmo os saques e butins necessários para sua manutenção, mas sim as imagens grandiloqüentes dessas batalhas, os episódios de grande expressão moral, os dilemas e conflitos de figuras como Aquiles, dividido entre a honra ferida e a sede de vingança, enfim, o fundo mítico trabalhado pelo poeta. Diferentemente do contemporâneo Hesíodo, Homero não almejava fixar as lendas gregas originais, mas, através das referências marginais, que geralmente apresentam a filiação divina de seus heróis, toda uma vasta mitologia se revela além do ciclo heroico: os deuses olímpicos intervêm nos acontecimentos, inclusive para mudar o destino dos homens, e a geração titânica de monstros e deuses primordiais é evocada para explicar a origem das coisas ou lembrar a glória de Zeus. Dessa forma, os primeiros grandes poemas escritos da antiguidade clássica são também as primeiras fontes de temas e motivos para a literatura no Ocidente, bem como um objeto privilegiado, durante séculos, pela avaliação crítica erudita. Como aponta Ítalo Calvino, o clássico gera uma “nuvem de discursos sobre si”; no entanto, sempre repelida: talvez a melhor maneira de compreender Homero ainda hoje seja ler o próprio autor.

A posição de precursor torna seus poemas clássicos por excelência, fundadores da genealogia ficcional que nos acostumamos a identificar como tradição ocidental. Qualquer leitor pode, aliás, reconhecer facilmente o lugar do clássico, como afirma Calvino. Tal “vocação para o futuro”, nas palavras de Jacyntho Lins Brandão, trata-se mais de um constante diálogo do que da simples repetição. As tragédias da Grécia Clássica, por exemplo, desenvolveram episódios da guerra de Troia ou tornaram aqueles personagens seus protagonistas, como na Orestia de Ésquilo, iniciada com a morte do rei Agamêmnon por sua esposa Clitemnestra, como vingança pelo assassínio da filha Ifigênia, ofertada à deusa Artemis, na Ilíada, para findar a peste que se abatia sobre as tropas gregas. Já o poeta latino Virgílio tomou Homero como modelo – e repetiu mesmo algumas fórmulas, como a descida ao mundo subterrâneo dos mortos, a descrição de elementos importantes do enredo na imagem esculpida em um escudo, além das óbvias cenas de batalha –, visando, com a escritura de sua Eneida, a superação do mestre grego. Para um exemplo que nos é mais próximo, basta lembrar a obra épica de Camões, Os Lusíadas, que inaugurou a grande escrita em português vernáculo recorrendo ao modelo homérico e evocando elementos daquele ambiente em sua narrativa. Resumindo, Homero fixou um gênero literário adotado por escritores de épocas e locais diversos, a epopeia, quer dizer, o canto do herói, mas também forneceu (e fornece) material para outras formas de expressão literária, como a tragédia acima mencionada.


É, portanto, a história de apropriações e atualizações que nos aproxima tanto de Homero. Ora, se o estético também é histórico, ou seja, se a forma mantém uma relação direta com o contexto cultural em que vigora, a retomada sucessiva do clássico é o que o torna clássico. Isso não significa destituir a obra de valor formal, o que equivaleria fazer tábula rasa de todos os textos de uma mesma sociedade e época, mas compreender que o belo é historicamente construído e regulado. Franco Fortini afirma que os clássicos de qualquer cultura estão “vivos” à medida que também estão “mortos”, quer dizer, em que o abandono do texto pelas diversas “formas de energia antagonista” que eles puderam encarnar em momentos diferentes permite novas leituras e questionamentos, inserindo a obra em novos debates e a atualizando no imaginário das gerações sucessivas. As novas respostas, todavia, precisam levar em conta a trilha de interpretações desenhada. É por isso que os enredos homéricos ainda nos são tão atraentes, capazes de levar multidões às salas de cinema em adaptações fílmicas ou se revelam rica fonte para novas formas narrativas hoje tão difundidas pela comunicação de massa como as histórias em quadrinhos.


Homero, dessa forma, ainda nos toca, ainda é capaz de nos dizer muitas coisas, coisas que sequer estão em seus poemas, mas que se tornaram parte de sua leitura, graças a quase três milênios de relações com o autor. Ler Homero é, assim, a forma mais feliz de se inserir nessa linha complexa e descontínua e, ao mesmo tempo, compreender uma maneira de ver o mundo que ainda nos constitui.

Bibliografia consultada:

BRANDÃO, Jacyntho Lins. Primórdios do épico: a Ilíada. In: APPEL, Myrna Bier, GOETTEMS, Míriam Barcellos (orgs.). As formas do épico: da epopéia sânscrita à telenovela. Porto Alegre: Movimento, 1992, p. 40-82.
CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
FRANCO, Fortini. Clássico. In: Enciclopédia Einaudi. Literatura-texto. Volume 17. Lisboa: Imprensa Nacional, 1989, p. 295-305.
HOMERO. Ilíada (tradução de Carlos Alberto Nunes). Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
HOMERO. Odisséia (tradução de Carlos Alberto Nunes). Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.VIDAL-NAQUET, Pierre. O mundo de Homero. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

domingo, 1 de agosto de 2010

A conquista do "País da Solidão"

Acaba de sair artigo em que examino o primeiro livro de Barbosa Lessa sobre a história do RS, em perspectiva também historiográfica (Rio Grande do Sul, prazer em conhecê-lo), na revista Fênix (UFU). O texto do Barbosa Lessa historiador acabou ficando muito parecido com a historiografia tradicional, a qual tanto criticou enquanto folclorista. Como, na minha opinião, o trabalho do analista não pode apagar as incoerências de uma obra/autor, vale a leitura um pouco incomodada, mas objetiva, da contradição - talvez aparente, dado que, politicamente, o livro continua afirmando o modelo, atualizado, do gaúcho pampiano, "centauro da pampa".




A conquista do "País da Solidão": Luiz Carlos Barbosa Lessa e a invenção do Rio Grande do Sul


Ainda somos filhos do século XIX. Muito do que constitui a experiência sóciohistórica contemporânea conheceu o mundo a partir das primeiras fábricas capitalistas ocidentais. A expansão industrial não somente consolidou a nova forma de organização econômica baseada na acumulação de capital, mas trouxe consigo novos fenômenos sociais, como o movimento operário, a organização política em partidos e, sem muito tardar, a produção e o consumo de massa. O imperialismo, por sua vez, levou o modelo de vida ocidental para as elites coloniais dos quatro cantos do planeta. Foi nesse momento que outro artefato cultural e político ganhou vida: a nação. Nos acostumamos, desde então, a (nos) pensar em termos nacionais. As lutas e os conflitos, bem como os acordos e as alianças, passaram a girar não mais em torno das dinastias ou casas reais, mas dos estados nacionais. Construímos nossas literaturas buscando a “essência” de nossas nações ou, simplesmente, classificando-as segundo as bandeiras empunhadas por nossos chefes políticos. Em função da nação, remodelamos nossos passados. Desenhamos nossas histórias a partir de genealogias imemoriais que atestam sua antiguidade. Deixamos de ser castelhanos, borgonheses, pomeranos ou correntinos para nos tornarmos espanhóis, franceses, alemães ou argentinos. A pátria, terra de nossos pais, se tornou a grande mãe nação. Aqueles pedaços de chão cuja extensão ou o poderio militar não permitiram uma vida política independente integraram unidades maiores. Os grandes impérios, por sua vez, dividiram-se em nações menores e “politicamente viáveis” ou, ainda, foram separados em regiões administrativas – e culturais – mais próximas do cotidiano dos súditos agora transformados em povo. Nos tornamos, finalmente, castelhanos espanhóis, borgonheses franceses, pomeranos alemães, correntinos argentinos...

[...]
Este texto analisará como a historiografia de Luiz Carlos Barbosa Lessa concebe gaúchos brasileiros. Devido às proporções de um artigo, abordarei em específico o livro Rio Grande do Sul: prazer em conhecê-lo, publicado em 1984 como esforço de síntese sobre a história do Estado, em seus três primeiros séculos, identificando como o autor elabora discursivamente a identidade regional afirmando símbolos como “passado comum”, “ancestrais fundadores”, “paisagem e lugares de memória”, “panteão de heróis”, “folclore”, “hábitos” e “costumes”. Trata-se, em suma, de averiguar como a escrita da história é empregada pelo principal teórico do “movimento tradicionalista” para a “naturalização dos atributos associados ao gaúcho e ao Rio Grande do Sul”.

ZALLA, J. A conquista do "País da Solidão": Luiz Carlos Barbosa Lessa e a invenção do Rio Grande do Sul. Fênix - Revista de História e Estudos Culturais, v. 7, n. 1, jan.-abr. 2010.


Texto na íntegra: http://migre.me/10UHB

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Shakespeare e a História: A tempestade (1611)

O objetivo do blog, como dito, também é apresentar textos não publicados, reflexões e críticas de leitura em geral. Para começar, segue abaixo pequeno ensaio sobre a peça de Shakespeare intitulada A tempestade, sob um possível ponto de vista histórico.



Shakespeare e a História: A tempestade (1611)


“O poder de originar é um dom individual, presente em todas as eras mas
evidentemente estimulado por contextos particulares, surtos particulares que só
estudaremos em segmentos, porque a unidade de uma grande era é geralmente uma
ilusão” (BLOOM, 2001:52).

A assertiva de Harold Bloom aponta para duas direções do campo intelectual, às vezes conciliadas na análise cultural, às vezes seguidas unilateralmente, por críticos e historiadores, como caminhos opostos: aquela da invenção criativa individual, comumente superestimada na noção nada dialetizada de “gênio”, e o domínio do social, cujos excessos podem levar à redução estrutural da primeira. A “morte do autor”, proclamada por Foucault, é evidentemente o alvo de Bloom. Pese a negação dessa perspectiva e a eleição da avaliação estética como foco do crítico, o excerto transcrito revela sua preocupação com o diálogo entre a literatura de imaginação e seu contexto de produção, mundo subjetivo e mundo objetivo ligados pela biografia do escritor. Tal é a possibilidade que pretendo explorar neste rápido ensaio: apresentar aquele terreno histórico no qual Shakespeare se moveu e atuou. O histórico deve ser tomado aqui em sentido amplo, como recorte temporal analítico que transita pela política, economia, sociedade e, inclusive, pelo debate literário, domínio de trocas, influências, apropriações e conflitos.

Quando William Shakespeare nasceu, em 1564, a Inglaterra elisabetana passava por um período de relativa paz externa e consolidação interna da monarquia. O absolutismo da dinastia Tudor, segundo Perry Anderson (2004), não pôde constituir, como nos países do continente, um Estado fortemente centralizado: a ausência de rebeliões camponesas não dava motivos à nobreza para suportar um aparato coercitivo oficial fora de seu controle; no sentido inverso, a ausência de um exército nacional permanente tornava menor a recolha de impostos, o que impedia a consolidação de uma burocracia administrativa tão sólida e influente quanto nas inimigas França e Espanha. A posição de relativa independência das elites fundiárias tradicionais do poder real se desdobrava na diversificação de sua base econômica: desde muito a nobreza feudal insular se associara aos interesses mercantis. Isso explica a configuração um tanto contraditória da Londres encontrada por nosso escritor, em torno de 1588: o peso da monarquia era considerável, mas, ao contrário da Paris de Racine, a corte não estendia seus tentáculos a toda urbe; além dos muros da cidade existia um mundo regido por leis próprias, sustentando com o dinheiro do comércio um incipiente mercado de bens imateriais: era lá, junto aos bordéis e tavernas, que se encontrava o teatro.

A condição do ator, e do dramaturgo, era naqueles tempos paralela a dos vagabundos e prostitutas, o que se tornava impeditivo para as ambições nobiliárquicas do filho de John Shakespeare, curtidor de peles e luveiro de Stratford. As estratégias de legitimação intelectual e social passavam, então, pelo reconhecimento público: era o aplauso da plateia e a possibilidade conquistada de voltar à cena que movia a dramaturgia inglesa. Depois da consagração, as peças poderiam ser representadas na corte. Quando Jaime I ascendeu ao trono, em 1603, iniciando a dinastia Stuart, Shakespeare já gozava uma posição confortável. A grande receptividade de seus poemas narrativos impressos e de suas peças lhe permitiram a renda necessária para a entrada como sócio na companhia de atores “The Lord Chamberlain’s Men”. A consagração como escritor também possibilitara, em 1596, a obtenção de um brasão para seu pai, o que lhe conferia título de nobreza. A nobilitação conquistada aumentava, assim, seu prestígio e lhe permitia fugir das suspeitas que, como dito, pesavam sobre os atores, vistos como “homens sem amo” (SMITH, 2008: 24). O patrocínio real transformou os Chamberlain’s Men em King’s Men. De 1604 a 1605, a companhia se apresentou onze vezes na corte, para entretenimento do monarca. Essa relação de patronato leva a análise ideológica dos últimos textos de Shakespeare a encontrar neles uma correspondência política com o absolutismo almejado pelo rei, que empreendera novas tentativas de centralização do poder, e mesmo com colonialismo inglês em gestação.

Exemplo desse tipo de interpretação é o artigo de Geraldo Ferreira de Lima (1996) sobre A tempestade. O autor toma o personagem Caliban como alegoria para o novo mundo, primitivo, mas passível de domesticação. Próspero é visto como o agente colonizador, que ocupa o espaço da ilha de Sicorax e domina seus habitantes originários, incluindo o etéreo Ariel: “Prospero, com sua ideologia colonialista, ao escravizar Ariel, lança uma nova modalidade de servilismo, e inverte a relação humano-sobrenatural, ao transformar-se em agente plenipotenciário dessa ideologia” (LIMA, 1996: 89). Mesmo concordando com a avaliação das relações entre os personagens, não podemos esquecer a recomendação há muito lançada pela teoria literária de não confundir a voz do narrador ou os papéis desempenhados no texto com as posições do próprio autor. Este é o primeiro erro da interpretação, que encara Shakespeare como servo, ainda que inconscientemente, da ideologia dominante. O segundo problema se dá justamente sobre a caracterização de suposta ideologia. Nesse sentido, a História explica o texto ao refutar a análise de Lima: como mostrado por Perry Anderson, a frota naval inglesa, em construção no período, não possuía fins marciais, mas somente comerciais; seu uso bélico se restringia aos saques e pilhagens. O colonialismo naval inglês é, portanto, produto do século seguinte, o que demonstra o anacronismo da leitura de Lima.

Não obstante, o mesmo artigo aponta para relações extratextuais mais complexas: aquelas entre a peça e a produção literária anterior ou contemporânea. Gostaria, então, de chamar a atenção para a contextualização discursiva da obra. Segundo Lima, Shakespeare sofreu influências espanholas, através da leitura de Noches de Invierno de Antonio Escalora ou Antonio de Eslava (1570-?), conjunto de narrativas estruturadas à maneira do Decameron de Bocaccio, que conta, entre elas, com a História de Nicephoro e Dardano, de trama análoga:

“Dardano, rei da Bulgária, é um mago virtuoso que, destronado por Nicephoro,
usurpador da Grécia, embarca com sua filha única, Serafina, em uma pequena nau,
e constrói no meio do oceano um formosíssimo palácio submarino, para residir.
Serafina cresce ali. Quando se torna mulher, o mago, disfarçado de pescador,
captura o filho do usurpador de seu país e o leva à sua residência submarina. O
príncipe e Serafina casam-se, o usurpador morre, o mago retoma seu reino e,
finalmente, transfere o poder ao jovem casal” (CARNEIRO apud LIMA, 1996:
90).

A apropriação da narrativa também se revelaria pelo uso de nomes hispânicos na peça, como Próspero, Ferdinando, Gonzalo, Alonso, Francisco, Sebastian, Miranda e Caliban (anagrama de “canibal”).

A segunda grande fonte de inspiração para nosso autor seria a tradição utópica. O discurso do conselheiro Gonçalo, na Cena I, do ato II, sobre a nação imaginária que ele gostaria de instituir, se lhe fosse dado tal direito, na ilha, lembra em muito trecho dos Ensaios do pensador francês Michel de Montaigne (1533-1592), publicados em 1580:

“...é uma nação, eu diria a Platão, na qual não há qualquer espécie de tráfico,
nenhum conhecimento das letras, da ciência e dos números, nenhum uso da
servidão, de riqueza ou de pobreza, nada de contratos ou de heranças,
partilhas
e ocupações; [...] nenhum metal, nem uso de vinhedos ou de
cultivos...”
(MONTAIGNE apud LIMA, 1996: 81).

A título de comparação, segue a transcrição da fala de Gonçalo:

“Em minha nação eu executaria (ao contrário do que é costumeiro) tudo e todos:
nenhuma espécie de comércio eu admitiria; nenhum tipo de magistratura; não
haveria homens letrados, nenhuma riqueza, nenhuma pobreza, nem o uso da
criadagem: nada de amos, nada de serviçais, nada. Contratos, sucessão por
hereditariedade, demarcação de terras, fronteiras, lavouras, vinhedos, ...nada!
Não se usava nem metal, nem cereais, nem vinho, nem azeite. Ninguém teria uma
ocupação. Ócio para todos! ...inclusive as mulheres... e todos seriam inocentes
e puros. Uma nação e nenhuma soberania” (SHAKESPEARE, 2007: 43-44).

Em recente artigo, Fátima Vieira (2009) examinou a relação entre A tempestade e o texto utópico, definido como um sub-gênero literário com “particularidades efabulatórias e estrutivas” que seguem o clássico Utopia, publicado por Thomas More em 1516. Mas se existe na fala de Gonçalo a intenção de desenhar uma comunidade ficcional ideal, falta-lhe a enunciação de uma ordem alternativa de organização social. Dessa forma, ainda que parafraseando Montaigne, a peça de Shakespeare se revela mais próxima do modelo da Arcádia, ou seja, da negação e rejeição da ordem social vigente, do que da utopia. A presença desta, segundo Vieira, não se dá propriamente no texto, mas no espaço da intertextualidade, ou seja, no contexto discursivo.

Outros elementos aparecem no plano do intertexto, como a referência a relatos e episódios de naufrágio, tempestade e de eventos semelhantes aos narrados na peça e amplamente difundidos no período. Como exemplo, podemos citar o rapto, ocorrido em 1526, da espanhola Lucia Miranda pelo cacique Mangoré, que com ela queria se casar, no primeiro estabelecimento colonial do Rio da Prata, e que participava do imaginário europeu sobre o novo mundo. Outro episódio aproveitado como tema foi o naufrágio de um navio inglês, em julho de 1609, que transportava o governador da colônia da Virgínia. Um ano depois, os náufragos chegavam a Jamestown em dois pequenos barcos por eles construídos (LIMA, 1996: 81).
É, portanto, a articulação criativa de elementos discursivos e de casos então recentes ou fortemente marcados na História da Europa ocidental que dota o texto de Shakespeare de originalidade. O aproveitamento de enredos e textos ensaísticos precedentes não pode, nesse momento, ser pensado como plágio, já que, como apontado por Harold Bloom, esta é uma distinção legal e não literária, “do mesmo modo como o sagrado e o profano formam uma distinção política e religiosa, e não são absolutamente categorias literárias” (BLOOM, 2001: 78). A composição da literatura de imaginação passava, então, pela cópia. Mas as respostas individuais e a excelência formal do texto de Shakespeare tornam sua obra única. Ao se questionar sobre o papel central do escritor inglês no cânone literário, Bloom aposta no valor estético como componente de diferenciação. Mas a norma que rege a beleza é próxima da “universalidade”, capacidade de tocar gerações e culturas diversas. Se o estético deve ser considerado um dos elementos da perenidade da obra, em Shakespeare, ele ganha grande repercussão graças à vocação multicultural, produto dessa composição plural de que falamos acima. A apropriação de – e interlocução com – outros textos e narrativas sociais mais amplas, no bojo de um processo histórico que marcaria o mundo ocidental por séculos, mune a qualidade literária de plasticidade suficiente para ser retomada, lida e encenada com vivacidade em diversos pontos do globo até os dias de hoje.

Referências:

ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 2004.
BLOOM, Harold. O cânone ocidental: os livros e a escola do tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
LIMA, Geraldo Ferreira de. The tempest: reafirmação do colonialismo inglês. Sitientibus, n. 14, 1996, p. 79-93.
SMITH, Cristiane Busato. Shakespeare: o homem e o mito. Revista e-Letras, n. 17, 2008, p. 16-28.
SHAKESPEARE, Wiliam. A tempestade. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: L&PM, 2007.

VIEIRA, Fátima. O espaço da utopia em A tempestade, de William Shakespeare. Revista FronteiraZ, v. 4, n. 4, 2009, p. 1-8.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Reinventar as tradições, ainda e novamente

Identidade

Para continuar na temática: texto publicado em setembro passado, às vésveras das comemorações da Semana Farroupilha, no Jornal da Universidade (UFRGS).


Reinventar as tradições, ainda e novamente

Mais uma vez, ao nos aproximarmos das comemorações em torno do episódio farroupilha, os signos da identidade regional são retomados, atualizados e disputados. Homens e mulheres da política às artes, oriundos das mais variadas forças sociais e instruídos por matizes ideológicos diversos, reivindicam o “centauro do pampa” e traçam continuidades entre o gaúcho de outrora e suas próprias trajetórias, seus projetos e as ideias que representam.
A “sentinela das coxilhas” foi, historicamente, ao mesmo tempo alvo e produto de apropriações e interpretações diferentes e mesmo conflitantes. O romantismo da segunda metade do século XIX construiu, é bem verdade, um núcleo simbólico forte o suficiente para informar de maneira renitente representações e práticas sociais ao longo do século seguinte. Grosso modo, o campesino da Pampa, gaudério errante e depois peão da estância, foi pintado em cores vibrantes, elencado como símbolo da nacionalidade e herói da história regional. O meio físico e social marca seu caráter: percorrendo os vastos desertos verdes no lombo do seu cavalo, ele é guerreiro, bravo, trabalhador e livre.
Mas a história do mito também é permeada de transformações. Esteio do Brasil no Prata, defende com garra o território e luta contra a tirania, não importa de onde ela vier – do além-fronteira, do Império Brasileiro ou dos próprios irmãos degenerados pelo poder. Pouco a pouco, o ethos campeiro contamina toda a sociedade. O campesino torna-se elite. O mito da democracia rural apaga as diferenças entre peão e patrão, e o gaúcho passa a figurar como o grande estancieiro. Seus valores e costumes são, enfim, apresentados como arrimo e legitimação da grande propriedade e, em seguida, de todo o status quo. A valorização da figura torna-o sinônimo de todo habitante do estado, e o gentílico “gaúcho” rompe, enfim, a oposição campo e cidade. Se todos somos gaúchos, os ideais por eles defendidos viveriam em nossas almas e marcariam nosso semblante. Trata-se, ainda e novamente, de definir tais ideais.
Um novo e importante capítulo da construção simbólica do gaúcho e da identidade regional nele fundamentada tem lugar na produção acadêmica desenvolvida a partir do final dos anos 70 e, principalmente, na década seguinte. A nova geração de intelectuais renega e desconstrói a literatura regionalista (romântica e ufanista), e a historiografia tradicional analisa, na sequência, o ainda recente movimento tradicionalista. O tom de denúncia marca suas páginas e as ligações dos eruditos do passado com a elite latifundiária são apontadas. O conceito de “ideologia”, fundamentado em uma perspectiva marxista ortodoxa, separa mito e realidade, e o universo gauchesco é encarado como invenção justificadora das classes dominantes. A esquerda política organizada assume a avaliação acadêmica e passa a desmascarar os usos do mito. Para lutar contra a exploração social no Rio Grande do Sul, é necessário atacar a fábula gaudéria.
Este tipo de interpretação só muito recentemente começou a ser matizada. Nos últimos anos, pesquisas em Antropologia Social e novas dissertações e teses em História passaram a questionar o mecanicismo das análises anteriores. Buscando referenciais e aportes teóricos em trabalhos como o do sociólogo Pierre Bourdieu e dos especialistas da chamada Nova História Cultural, o foco dos estudos tem-se deslocado da desmistificação para o exame da construção social da realidade. Práticas e discursos ganham o mesmo peso na elaboração do real e a denúncia cede espaço à compreensão. Os desenvolvimentos dessa produção intelectual ainda nos escapam ao horizonte, mas o certo é que, novamente, a figura do gaúcho transforma-se. E, mais uma vez, a academia reinventa as tradições, com uma crítica aberta e plural e que, ao mesmo tempo, desconfia das aparências e evita soluções fáceis. O papel do cientista social na elaboração do seu objeto, então, evidencia-se e torna-se outro foco de reflexão.
Dessa forma, o cenário das disputas simbólicas em torno da identidade regional se descortina ao cientista, mas também ao militante. Novos arranjos parecem possíveis e a esquerda entra no jogo identitário não mais para negar, mas para reconstruir o gaúcho popular e carregá-lo de ideais libertários. O que veremos nos próximos dias será mais um episódio desse embate - afetado, entretanto, pelas aparas do nosso tempo. Esquerda e direita, tradicionalistas e leigos, ciência e senso comum encherão as páginas dos jornais locais, conclamando irmãos, narrando e celebrando feitos, analisando práticas e discursos, desconstruindo (ainda) mitos e emblemas e, de alguma forma, consciente ou inconscientemente, posicionando-se na longa batalha pela definição de nossa identidade coletiva.
ZALLA, J. Reinventar as tradições, ainda e novamente. Jornal da Universidade (UFRGS). Porto Alegre, setembro de 2009, p. 4.
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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Gaúchos e/ou brasileiros (?)

Identidade

Texto sobre a construção da identidade gaúcha e sua relação com a brasilidade publicado durante a Semana Farroupilha do ano passado.


Gaúchos e/ou brasileiros (?)


Com as recentes comemorações da Semana da Pátria e da Semana Farroupilha, gostaria aqui de pensar as relações entre região e nação em nossa história cultural. As particularidades do Rio Grande do Sul, sejam físicas, socioeconômicas ou culturais, são comumente usadas como motivo de brincadeiras entre gaúchos e demais brasileiros, ao ponto de ouvirmos, como já apontado pelo antropólogo Ruben Oliven, desconfianças sobre este “estranho país do Sul”. A proximidade com as nações platinas, as trocas por ela ocasionadas e uma história de fronteira móvel e em conflito com o poder central podem fortalecer esta avaliação. Ainda que o peso das colônias de migrantes na sociedade sul-rio-grandense tenda cada vez mais a caracterizá-la como “um pedaço da Europa no Brasil” (o que marca outro distanciamento com o todo nacional), são os signos do gauchismo que prevalecem na definição de nossa identidade cultural. Politicamente, o discurso regionalista gaúcho baliza tanto reivindicações de autonomia administrativa e/ou de destaque no cenário brasileiro quanto projetos, bastante malsucedidos, é verdade, de independência do Estado. Mas em que medida o gaúcho, aquele de bombachas, botas e esporas, e que nos deu o nominativo de habitante do Rio Grande do Sul, foi pensado como mais ou menos brasileiro?

Nos anos 90, o muito conhecido episódio de tentativa, por um pequeno grupo de seguidores de Irton Marx, hoje vereador de Santa Cruz do Sul, de fundar uma República da Pampa ganhou destaque na imprensa do centro do país através da exposição de seu líder em um dos programas televisivos de maior audiência dos domingos. Uma bandeira foi desenhada e adesivos com os novos símbolos da Pampa eram vistos com certa facilidade em vidros traseiros de viaturas no Estado. Mais de uma década depois, não é menos difícil encontrarmos sites e blogs que bradam pela “liberdade do povo gaúcho” se espalhando pela internet. Desconsiderando-se o tom caricato que muitas destas manifestações adquirem, é inegável que os signos do gauchismo servem a parcelas da população, pequenas, ao que parece, insatisfeitas com a participação do Rio Grande na federação brasileira.

De outro lado, parcelas maiores, e aí podemos incluir os adeptos do Movimento Tradicionalista Gaúcho, não concebem possível se declararem gaúchas sem se sentirem brasileiras. Os fundadores do tradicionalismo, no primeiro boletim informativo do “35” CTG, de 1948, por exemplo, evitavam suspeitas, declarando que não os animava o espírito separatista. O próprio tradicionalismo organizado nasce de uma cavalgada, em 1947, de jovens estudantes do Colégio Júlio de Castilhos durante as comemorações da independência do Brasil. Do fogo da pira da pátria extinto no dia 7 de setembro daquele ano nasce a chama crioula, a ronda gaúcha e as futuras comemorações da Semana Farroupilha. Daí o elo simbólico que une a “parte” ao “todo” em suas maiores demonstrações de civismo.

Mas muito antes disso, na segunda metade do século 19, nossos intelectuais construíram o mito do gaúcho com objetivos claramente nacionalistas. O romantismo literário, que objetivava atingir a essência da nação brasileira, inventariava os tipos regionais, dentre eles, o gaúcho pampiano, “monarca das coxilhas”. Assim, concebido como brasileiro, o gaúcho sul-rio-grandense, enobrecido nas canetas de literatos e historiadores, não teve dificuldades em se tornar símbolo e gentílico do Estado. A recuperação do mito do centauro pelo tradicionalismo também passa pela afirmação de sua brasilidade. Se hoje é possível que símbolos assim desenhados sejam apropriados por “ânimos separatistas” é porque, por muito tempo, ser gaúcho significou ser brasileiro de uma maneira muito particular, paradoxalmente para alguns mais sincera porque opção, para outros mais natural porque forjada pelo tempo.

ZALLA, J. Gaúchos e/ou brasileiros (?). Zero Hora. Porto Alegre, 19/07/2009, p. 19.

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